terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Poltrona VIP - Cineastas


Ivan de Souza Cruz - por Danny Doo®
Bacharel em cinema pela Universidade Federal Fluminense
Após a formação se especializou em assistência de direção tendo trabalhado desde então em longa-metragens, curtas, comerciais e séries para a tv.


1 – Como é fazer cinema no Rio? O cenário é mais propício, ou isso é fantasia?

Fazer cinema em qualquer lugar do Brasil é difícil, mas aqui no Rio você tem a facilidade de estar em um dos poucos pólos de produção desse país. Em São Paulo se encontram as maiores produtoras de comerciais e no Rio estão as maiores produtoras de cinema. Entretanto é aqui no Rio que a maioria dos filmes e comerciais são rodados. O Rio é procurado por sua beleza não só pelas produções brasileiras, mas também por muitas estrangeiras.


2 – De que projetos você já participou?

Eu trabalhei nos longas “Apolônio Brasil” de Hugo Carvana, “Quase Dois Irmãos” de Lucia Murat e “Chato” de Guilherme Fontes entre outros trabalhos.


3 – De que forma um profissional de cinema pode atuar hoje nesse mercado tão restrito?

Ele não pode ficar restrito a apenas uma mídia, tem que estar preparado para trabalhar com cinema, comerciais, vídeos etc. O mercado realmente é muito restrito e o profissional de cinema tem que estar sempre atualizado com o que está acontecendo no mercado, cultivar uma rede de conhecimento pessoal muito extensa, já que é muito difícil você entrar em uma produção sem ser indicado por alguém, e estar pronto para levar uma vida sem horários ou estabilidade.


4 – Como é seu trabalho no dia-a-dia?

Como em todas as profissões ligadas ao cinema o dia-a-dia é bastante pesado. Em cinema você trabalha 12 horas por dia 6 dias por semana tendo apenas uma folga. O assistente de direção é responsável pela logística das filmagens, pela a circulação das informações no set, pelo elenco e pelo andamento do set. Você tem que lidar com bastante pressão. Essa é uma tônica de todas as profissões ligadas a produção de cinema já que o filme é um produto feito realmente em equipe e cada equipe tem uma responsabilidade muito grande.


5 - Como foi a escolha de sua profissão, ela reflete hoje a idéia que você idealizou ou imaginava no início ?

Durante meu período universitário participei de vários curtas e a assistência de direção surgiu naturalmente. A assistência de direção te dá uma visão geral da produção e do funcionamento de todos os departamentos. Quando entrei na Universidade eu não tinha idéia do processo de fazer um filme, eu só pensava no filme em si. Depois eu descobri como esse processo é rico, intenso, como ele pode te tirar do sério e fazer você se apaixonar.


6 – Quem são os bons profissionais de cinema hoje? Qual a origem deles?

Os bons profissionais são aqueles que aliam o cuidado técnico com a busca de uma qualidade artística. O filme é um produto de uma indústria, mas também é uma forma de arte poderosa. Essa dualidade tem que ser equacionada.Até pouco tempo não existiam faculdades de cinema e o Brasil produziu grandes filmes e grandes diretores. Hoje você vê cada vez mais pessoas entrando no mercado vindo de faculdades de cinema. Isso é bom porque você começa a criar um profissional que não é apenas um técnico, mas um profissional que tem uma visão mais abrangente.


7 – Que atitudes ajudam ao profissional fazer e manter um bom networking ?Como é o processo de correr atrás de patrocínio para um projeto?

Você deve sempre estar atento aos eventos ligados a sua área, nos filmes que irão começar a ser produzidos, além de cultivar e ampliar os contatos feitos durante seus trabalhos anteriores. Uma rede de contatos ampla é a garantia de trabalho. O contato pessoal é muito importante já que esse mercado funciona através de indicações.O financiamento para a produção de cinema hoje no Brasil vem basicamente de incentivos públicos, já que historicamente não conseguimos implementar uma verdadeira indústria em nosso país. O processo é muito difícil e demorado, exigindo muita paciência e perseverança. Instituições governamentais tais como Petrobrás, BNDES e o Ministério da Cultura abrem, todo o ano, editais de fomento a produção cinematográfica. Além disso, através de renuncias fiscais as empresas privadas podem investir em projetos cinematográficos. Conhecer esses mecanismos e as pessoas que estão a frente desse processo é um dever de quem quer captar verbas.


8- Como você percebe o cenário brasileiro e mundial do que é produzido atualmente?

No Brasil vemos uma renovação de cineastas, com pessoas jovens começando a despontar no cenário cinematográfico. Com isso novos temas e novas propostas estéticas começam a surgir. Entretanto o espaço de exibição ainda está dominado pelos filmes estrangeiros, principalmente os americanos.No cenário mundial vemos uma estagnação de idéias e propostas estéticas. Depois do ciclo criativo das décadas de 60 e 70 o cinema foi dominado exclusivamente pela lógica de mercado e a ousadia estética e de conteúdo foi trocada pela segurança de fórmulas testadas e usadas a exaustão. São poucas as cinematografias que fogem desta lógica.


9 – A índia é um dos maiores produtores de cinema no mundo, pelo menos no quesito quantidade. Por que esses filmes nunca chegam ao ocidente de forma expressiva? Existe uma hegemonia? Como funciona isso?

A Índia é um caso interessante. Com uma cultura própria muito forte o público indiano nunca se viu representado pelas cinematografias estrangeiras, rejeitando esses filmes. Isso proporcionou o cenário ideal para a construção de sua indústria.No ocidente realmente existe uma hegemonia do cinema americano. Essa hegemonia foi construída e é mantida através de uma política comercial muito agressiva. Os EUA foram os primeiros a perceber o poder do cinema, tanto como mercado comercial, quanto como veículo de dominação cultural. O Governo americano vê o cinema como uma indústria estratégica. O cinema é o embaixador da cultura, das idéias e dos produtos americanos. Os EUA pressionam governos e indústrias, sempre tentando impedir que sua hegemonia seja ameaçada.


10 – Que dicas você daria a um jovem estudante que está muito interessado em fazer cinema hoje?

Esse jovem não pode ficar esperando que as coisas aconteçam. Ele tem que estudar bastante, aproveitar todas as chances para produzir projetos próprios e procurar conhecer o máximo de pessoas da área para começar a construir sua network. O talento e a sorte farão o resto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Cultura Malcriada - disse...

Oi Danny!

Vim retribuir a visita... gostei do seu blog. É leve e gostoso de ler. Particularmente, achei muito legal a entrevista com o Ivan de Souza, sobre um assunto que me interessa muito e que tenho minhas crenças já estabelecidas.

http://artedequem.blogspot.com
Vou voltar mais vezes... parabéns!